Discordando veementemente de André Kfouri


Peguei parte do post do André, irmão do Seu Cruz, e postei aqui, mantendo as cores e tudo. Fantástico. Para ajudar você a Legenda:
AZUL: post original de André Kfouri
VERDE: comentários do post por André Falavigna (Blog do meu saco)

DEIXEM OS TÍTULOS EM PAZ
por André Kfouri e comentado por André Falavigna

E aí, também está fazendo um dossiê?

Começamos mal. Gostaria de saber que outra providência os clubes que se julgam injustiçados deveriam tomar que não documentar provas que refutem o que julgam injustiça e, a partir de tal documentação, tentar desfazê-la – o que é possível, ainda, ou as principais colunas do jornal não perderiam tempo com isso. A ironia, assim como está, é gratuita. Melhor seria estudar a documentação oferecida e deixar as gracinhas para depois, se coubessem.

Digamos que, há alguns anos, você ganhou um torneio de ping-bong (é assim que minha filha de 4 anos fala, e eu me recuso a contrariá-la) disputado apenas por quem trabalhava no seu andar. Partidas equilibradíssimas, um torneio que você suou para vencer.

Nos dois anos seguintes, ganhou de novo. Então você é um legítimo tricampeão do torneio de ping-bong do seu andar, a principal competição da empresa entre 2001 e 2003. Feito que não se apaga, está nos livros. Pode sentir orgulho e bater no peito.


E a coisa piora. A Taça Brasil e o Robertão não foram menos abrangentes do que a imensa maioria de suas versões denominadas “Campeonato Brasileiro”, cuja abrangência exagerada, muitas vezes, até desqualificou. A analogia está simplesmente errada. Os “torneios do andar” já eram os campeonatos estaduais. A Taça e o Robertão eram tanto do “prédio todo” quanto o foi a Copa União. Não dá nenhum trabalho verificar isso. Já comparamos 68 a 87, e nada melhora muito quando desdobramos as comparações entre os demais anos. Não se tratava do campeonato mais importante do prédio, só que disputado apenas pelo andar mais gostoso. Fosse tal distinção admitida, muitos Brasileirões não passariam, por sua vez, de títulos – deixem-me ver – mezaninos, no máximo.

Mas eis que o esporte cresceu e virou uma febre no prédio. Em 2004, foi criado o primeiro “Campeonato Geral de Ping-Bong” da empresa, com quase cem jogadores. Partidas disputadas na hora do almoço, em plena sala de reuniões da presidência, com cobertura total do jornalzinho interno. O campeão ganhava um troféu bonito, prêmio em dinheiro, e uma festa no restaurante da diretoria. Moral incrível.

E a coisa piora ainda mais. A Taça Brasil e o Robertão tiveram, muitas vezes, mais participantes do que suas versões denominadas “Campeonato Brasileiro”, e com tanta abrangência quanto a maioria deles. A analogia aprofunda o erro. O “prédio todo” não estava menos na jogada entre 59 e 70 do que passou a estar em 71, com a vantagem de que, até 70, não esteve submetido ao arbítrio de um regime que hipertrofiasse seus torneios.

Só que, sabe como é, com mais gente jogando, as dificuldades aumentaram, e você nunca sentiu o gostinho de entrar no elevador e perceber as pessoas se cutucando (”viu quem é? É o campeão de ping-bong!!). Ah, como deve ser bom…

Aqui a coisa desanda para inverdade pura e simples e a analogia parte para o grotesco. Basta verificar o número de participantes em cada versão do campeonato, bem como a procedência dos postulantes. E, quanto aos “cutucões no elevador”, não é demais lembrar que o torneio do “prédio todo” não passou a mais prestigioso de 71 em diante. Durante muitos anos, o “campeonato do andar” era tão ou mais valioso que o do “prédio todo” tanto para torcidas quanto para clubes, tolos quanto se os tome pela preferência. Além do mais, ainda que a analogia servisse para alguma coisa – e ela não serve para quase nada –, há agravante aí: todos – é, todos – os vencedores das versões “Taça Brasil” e “Robertão” venceram também a versão “Campeonato Brasileiro” ou “Copa União”, razão pela qual não teriam curiosidade nenhuma em sentir gostinho nenhum que já não tivessem tido oportunidade de gozar, às vezes fartamente. “Ah, como deve ser bom” o quê, cara pálida?

Não passe mais um dia imaginando, amigo. Faça logo um dossiê e peça a equiparação dos seus títulos com os do Campeonato Geral. Você não vai ganhar o troféu, o dinheiro, ou a festa. Talvez não consiga nem comemorar. Mas e daí? Se aceitarem o pedido, na próxima vez em que o campeão geral entrar no elevador e as pessoas se cutucarem, você poderá dizer que ganhou o mesmo título.

O troféu, o dinheiro e a festa já foram ganhos ou feitos e, portanto, não podem e nem devem ser ganhos ou feitos novamente. E, por isso mesmo, muito menos podem ser tirados, que é com o que o jornalista e seus pares estão colaborando ao espalhar essa conversa fiada – apoiada ou não em analogias mal empregadas, falta de critério e pouca disposição para a pesquisa ou até simples senso histórico. Só o que se quer é evitar a infantilidade, estimulada pela e na imprensa, do “olha, você ganhou mas não vale mais – éramos todos café-com-leite, afinal”, porque se trata de mentira.

É só isso, e nada mais.


Apesar de não ser o mesmo. Vai ter de explicar que o comitê do cafezinho equiparou os torneios, com base na importância dos primeiros campeonatos do andar. Não importa que eles tinham nomes diferentes, e que você não venceu o Geral. Você se sentirá campeão do mesmo jeito. Ou não?

Não se trata de como os clubes irão se sentir, nem dos nomes dos campeonatos, e nem da importância deles. Entre os campeonatos que André Kfouri reputa como “Gerais”, tudo isso variou além de qualquer linha demarcatória, muitas vezes ao ponto de se tornarem as disputas muito menos amplas (e gerais, diga-se), sérias e difíceis do que as André Kfouri chama de “do andar”. E trata-se menos ainda de quem decide se serão reconhecidos ou não os títulos – se o comitê do cafezinho ou o a CBF. Isso tudo é acessório. O principal é pôr as coisas em seu devido lugar, ou optar pela farsa. É disso que se trata. É só isso, e nada mais.

Afinal, não é isso que alguns clubes de futebol estão fazendo?

Não, não é. Está claro que não é. O que se quer é que se reconheça a verdade: Palmeiras e Santos, por exemplo, têm mais títulos brasileiros que São Paulo e Flamengo, por exemplo, sob qualquer critério de comparação que se queira adotar: nome do campeonato, importâncias relativa e absoluta, abrangência nacional, número de participantes, formato de disputa etc – qualquer um, sem exceção. Por que devem fingir que não têm? Cartas à redação, por favor.

Palmeiras e o Fluminense querem que a Fifa resolva que a Copa Rio, que eles ganharam no começo da década de 50, é o Mundial de Clubes, criado em 2000. O Santos pede que a CBF equipare os títulos da Taça Brasil e do Robertão, conquistados nos anos 60, ao Campeonato Brasileiro, disputado a partir de 1971. Basta uma canetada, e a festa começa.

Mais bobagem. Por que o Campeonato Brasileiro começou apenas em 71? É muito repetir mas, na falta de outro recurso mais divertido, eu não resisto e repito: pelo nome que não é, pela forma que não é, pelos partícipes que não é, pela importância que não é, pelas conseqüências que não é, pela sopa de letrinhas institucional que não é: quem se aposentou pelo IAPI ainda recebe proventos pelo INSS. Pelo tudo que não é e pelo nada que é, por que “… começou apenas em 71.”? Noves fora, quem desceu a canetada? Preciso desenhar?

Será? Qual é o problema em ter orgulho do que se fez, quando se fez?

Eu que pergunto. Qual é o problema, afinal? Problema haveria se quem tivesse direito a se orgulhar fosse constantemente perturbado pela mentira e, para piorar, ficasse quieto. E o que “quando” tem a ver com isso? Quando os atuais brasileiros tiverem mais de 50 anos, valerão menos?

Não há dúvidas sobre a relevância dessas conquistas. A Copa Rio era, comprovadamente, o principal torneio internacional de clubes de sua época. Do mesmo modo que a Taça Brasil e o Robertão eram o que havia de mais importante no futebol brasileiro, enquanto existiram.

Não é bem assim. Se isso fizesse sentido, eu diria que a Copa União não era o campeonato brasileiro, mas apenas “o que havia de mais importante no futebol brasileiro”, enquanto existiu. Apenas não o faço porque sei que não há nenhum critério válido segundo o qual se possa dizer que a Copa União não era o Campeonato Brasileiro, só que com outro nome.

Os troféus estão guardados, as glórias eternizadas, a história preservada.

Mentira. Os troféus estão guardados, mas a glória e a história têm sido depredadas por textos como este de André Kfouri. É glória e história o que se quer preservar com trabalho e documentação, e é a glória e a história que têm sido vítimas da sanha reformista sustentada por nenhum argumento, documentação séria ou ao menos uso da lógica.

Ninguém – que esteja falando sério – pode negar.

Dessa observação devo inferir que o jornalista é o maior dos brincalhões sapecas.

Mas querer transformar esses títulos, com outro nome ou uma equivalência ao que veio mais tarde, é ofender o esforço dos jogadores que os conquistaram.

Todos os títulos, a não ser o primeiro, devem necessariamente vir mais tarde do que os que veiram mais cedo. É o caso de citar Chesterton: não posso mais levar a sério a gente que prefere a quinta-feira à quarta-feira somente porque ela já é a quinta-feira. Não há dúvidas de que os campeões da Taça Brasil e do Robertão possam estar ofendidos. Dizem-lhes que Richarlyson é três vezes campeão brasileiro e que Pelé não é nenhuma – mas não lhes dizem o porquê, apostando todas as fichas em comparações mancas, imprecisão histórica e desejo puro. É uma piada triste. Não dá para pegar leve. Sinto muito.

O campeonato de ping-bong do seu andar não vale menos, só porque existiu antes do Campeonato Geral.

Valeria menos, sim, se houvesse sentido na comparação – coisa que não há. O “andar” não é o “prédio todo”; não recebo por aquele os mesmos cutucões Thyssen & Krupp que este enseja e não posso negar o fato de que o todo inclui as partes – superar o “prédio todo” é mais importante que superar só um de seus andares, importante o quanto ele seja –, mesmo a cobertura triplex vale menos que o alto a baixo.

O caso é que tudo isso é um arranjo muito safadinho de palavras vazias que, suavizantes o quanto sejam, não atenuam a gravidade do ferimento aberto há décadas, e crescendo, na história dos clubes – ao qual o colunista oferece agora sua contribuição. E que se deve desinfetar, fechar e deixar cicatrizar. O corte deve ser curado, não ignorado. Não são os clubes que o rasgaram. Foi a CBF, com a conivência – e agora ativismo mesmo – de nossa crônica.

Ele só não é o Campeonato Geral.

Por quê? Isso o cronista não responde com outra coisa que não essa analogia de ponta a ponta falaciosa cuja utilidade, na melhor das hipóteses, é tornar fosforecentes os erros dos que, em meio à escuridão da ignorância, nela se apóiam.

É uma vergonha em toda a linha. Se alguém quiser continuar a defender o indefensável, que assuma ao menos a pesada carga de nos mostrar que estamos errados. Porque, se for para chutar, daí já é demais.

Haja saco, viu?

2 Comentários até agora.

  1. Catedraldeluz escreveu:

    O mundo dá voltas! Aqueles que menosprezam nossa história, ainda podem se surpreender com ela.

    "Construir para poder conquistar! Acreditar sempre!"

  2. brunobatera2009 escreveu:

    Falando nisso, já faz uns dois meses q foi feito o dossiê e a CBF até agora ñ se pronunciou sobre o assunto. Vc tá sabendo quando é q esses títulos vão ser reconhecidos?

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