O dossiê - Parte 6


MATÉRIA DE 1958 CONFIRMA:
TAÇA BRASIL FOI CRIADA PARA ELEGER O CAMPEÃO NACIONAL

A edição do dia 25 de outubro de 1958 da revista Manchete Esportiva – quatro meses depois de o Brasil conquistar sua primeira Copa do Mundo – traz uma entrevista exclusiva com João Havelange, presidente da Confederação Brasileira de Desportos, que não deixa qualquer dúvida de que Taça Brasil foi criada para definir o campeão brasileiro.

A matéria, escrita por Ney Bianchi, um dos jornalistas mais respeitados da imprensa esportiva brasileira, fala dos planos de Havelange de acabar com o Campeonato Brasileiro de Seleções estaduais e lançar o Campeonato Nacional de Clubes, que seria batizado como Taça Brasil.

Com o título “Taça Brasil, a nova revolução de Havelange”, a matéria mereceu duas páginas, uma delas com a foto de corpo inteiro do presidente da CBD, sobre a legenda: “Havelange quer fazer a Taça Brasil. Estuda”.

A partir da introdução, clara e informativa, de Ney Bianchi – que, nunca é demais recordar, foi o único jornalista a conquistar três vezes o Prêmio Esso de Informação Esportiva – fica-se sabendo que, mesmo tardiamente, o Brasil teria a sua com-
petição nacional de clubes, que ela definiria o campeão do País para a disputa de uma competição sul-americana de clubes campeões (Taça Libertadores da América) e, por fim, que seu nome seria Taça Brasil, o que efetivamente acabou acontecendo. Ney Bianchi abriu sua matéria anunciando:

“A partir do momento em que o presidente João Havelange recebeu e acertou, na Europa, o convite para organizar a parte americana de um torneio objetivando apontar o clube campeão do mundo, criou-se, para o Brasil, um problema de transcendental importância. Pela proposta recebida, o presidente João Havelange teria de encaminhar entendimentos com todas as federações futebolísticas do Novo Continente, tendentes a organizar-se as eliminatórias americanas, que apontariam o rival do campeão da Taça da Europa, na finalíssima que indicaria o clube laureado. O problema nasceu do fato de não possuirmos – incrivelmente – um campeonato nacional de clubes. A primeira dificuldade, então, passou a ser doméstica. No seu retorno, João Havelange vai quebrar lanças para degolar de uma vez para sempre o caduco, deficitário e incoerente campeonato brasileiro de seleções, substituindo-o por um moderno, lucrativo e coerente torneio nacional de clubes: a Taça Brasil”.

No parágrafo seguinte, o grande jornalista que nasceu e morreu no Rio de Janeiro (21/01/1929, 22/12/1998) lembra que a idéia de uma competição nacional de clubes não era nova e que já havia sido defendida com ênfase pelo dirigente botafoguense Nelson Cintra, em uma mesa-redonda organizada pela revista Manchete Esportiva, com representantes dos principais clubes cariocas:

“Quando fervia mais a polêmica em torno dos prejuízos marcantes que o futebol brasileiro deixava nos seus principais campeonatos regionais e no próprio certame nacional de seleções, Manchete Esportiva tomou a si a missão de convocar para uma mesa-redonda os dirigentes dos principais clubes do Rio e com eles debater a uestão. Naquela ocasião, evoluía com toda a força a idéia lançada pelo saudoso desportista botafoguense Nelson Cintra, que preconizava o fim do campeonato de escretes e a criação da Taça Brasil, nos mesmos moldes que a Taça da Inglaterra e reunindo todas as agremiações profissionais do País”.

O dirigente do Botafogo, explicou o jornalista, pretendia “incentivar o confronto entre clubes, eliminando o deficitário campeonato brasileiro de seleções”. Para isso, ele sugeria que os jogos dos campeonatos estaduais já valessem com as primeiras eliminatórias para a Taça Brasil.

A proposta de Cintra, apesar de recebida com entusiasmo, não era integralmente aceita, como percebeu Bianchi. Entre as sugestões para aprimorá-la, o perspicaz jornal ista acabou destacando aquela que realmente seria adotada na Taça Brasi l:

“A idéia de Nelson Cintra encontrou muitas opiniões favoráveis e outras tantas divergentes. Alguns bateram-se que os campeões de cada Estado fossem qualificados para um torneio eliminatório que apontaria o clube campeão do Brasil, numa finalíssima que seria obrigatoriamente jogada no Maracanã e presidida pelo presidente da República. Essa fórmula, também exeqüível, ainda hoje reúne muitos adeptos”.

Em seguida, Ney Bianchi citou as cinco fórmulas sugeridas para a Taça Brasil, e novamente teve a sensibilidade de se estender naquela que era igual à da Taça da Europa, na qual os Estados brasileiros seriam como os países europeus e os campeões estaduais brasileiros funcionariam como os campeões nacionais das nações européias. Esta, como sabemos hoje, foi a sugestão aprovada (uma outra, que depois se tornaria o Torneio Roberto Gomes Pedrosa, era expandir o Torneio Rio-São Paulo com times, em princípio, de Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Pernambuco).

De regras simples e inflexíveis, a Taça da Europa, competição que nasceu de uma sugestão de jornalistas esportivos do jornal francês L’Equipe, só permitia a participação de campeões nacionais dos países europeus ou do campeão de sua última edição. Era disputada pelo sistema eliminatório, com confrontos diretos de ida e volta que classificavam a equipe com melhor saldo de gols (neste particular a Taça Brasil foi mais generosa, pois não levou em conta o saldo de gols e previu um terceiro jogo em caso de igualdade nas duas partidas).

A entrevista de Ney Bianchi com João Havelange, o presidente recém-eleito da Confederação Brasileira de Desportos – que permaneceria no cargo por seis gestões, de 1958 a 1975 – revelou-se profética. Tudo o que foi dito, foi feito: a Taça Brasil, a partir do dia 23 de agosto de 1959; o Campeonato Sul-americano de Clubes Campeões, ou Taça Libertadores da América, a partir de 1960; e a decisão entre o campeão da América e o da Europa, na final intercontinental que começou a ser disputada em 1960, sempre no fim da temporada.

Enfim, não havia outra fórmula de se fazer um campeonato nacional em 1959 a não ser como foi a Taça Brasil. E por isso foi feita, com visão e méritos indiscutíveis, pela Confederação Brasileira de Desportos. Isso é um fato. Reconhecê-lo, mais do que uma questão de bom senso, é uma questão de admitir que o futebol brasileiro tem um passado que, mesmo carente de recursos, deve ser motivo de orgulho e não de esquecimento.

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